sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

CONTE COMIGO - PRIMEIRO CAPÍTULO - (livro a publicar)
VAN CURTT08:26 1 comentários


DISPONÍVEL A EDIÇÃO E AGENCIAMENTO 


A psiquiatria é a maior fábrica de loucos já criada pelo homem, vem antes mesmo do sistema  prisional, pois, eles estudam pra ficarem loucos como os loucos se dizendo  normais...
Trecho extraído do livro TABULEIRO - VAN CURTT




P R Ó L O G O 
l Um ano antes l

— Senhor meu Deus, faça-me compreender os trilhos da tua vontade. Dê-me percepção para discernir como tem feito sempre; escute o meu clamor como mísero mortal e interceda o mau: amém — Joel limpou a fronte borrifada de suor pela manga do blazer e estendeu o braço para acionar o ar condicionado, golpeou o pulso conferindo o horário enquanto contornava a esquina, ao girar o volante.
Oito dias sem fechar um único contrato lhe atordoava a calmaria, mesmo que a rotina da agência estivesse comprometida para os próximos quinze dias; ademais, absorvera de Franklin a indulgência de aceitar a inserção de novos clientes em sua disposição, ainda consciente ter de rolar o contrato posteriormente para cumpri-lo.
Confederado ao seu clamor, a voz veio novamente lhe roubar a atenção:
“Não vai assinar esse contrato contigo. Mohammad tem tratos publicitários com aqueles chacais e nada que falar ou fizer mudará a opinião dele sobre a sua agência: veio apenas cotar o seu preço para levar à eles, pois, estão ligados ao grupo há mais de dez anos” gargalhou ressonante tão quanto o pesado trânsito da região central, como um grito amordaçado pelos vidros do veículo estarem fechados. “Diminua a velocidade Joel... deve parar de duvidar de mim: sabe que somos assim: um pelo outro”.
Desviou os olhos do retrovisor interno e passou mais se dedicar à direção, porquanto, não quis arriscar: reduziu a velocidade assentindo com um sucinto menear de cabeça. Seus lábios deslizaram articuloso sorriso enquanto o silêncio ressurgia em sua psique.
— Por que não podemos desbancá-los no preço ressaltando a qualidade do nosso trabalho? Devemos estar prontos para contestar o tratamento dado à última campanha contratada por Mohammad... somos prova disso: na campanha lançada recentemente, a picape derrapava em uma estrada cascalheira quase sem elevar poeira, os pneus estavam pretos como piche contradizendo o trajeto percorrido, e... o brilho da pintura estava também impecável.
“És detalhista demais Joel. Imagina poder controlar tudo mas, quem te controla? Já verificou por este lado? (...) Você é o peixe menor e, até mesmo a tua esposa tem maior percepção para os negócios que você”. Ele agora fora falacioso apontando Sheila como reguladora dos tropeços de Joel.
— Você é irreal, apenas uma criação da minha mente. É algo tão descartável quanto estes papéis aqui — Joel buscou alguns formulários avulsos sobre o banco desocupado a seu lado e, elevou-os enquanto escorriam de modo irregular entre seus dedos. Golpeou-os ao banco traseiro sacolejando o pulso cerrado, deixando a cabeça descair para trás e seu riso se transformar em uma gargalhada assombrosamente solitária.
O publicitário pôde sentir a mão do seu eu pousar sobre seu ombro e pressionar o músculo trapézio, fazendo-o revolver a atenção ao retrovisor interno à mais uma vez conferir os faróis dos outros carros seguindo o mesmo trajeto seu, porquanto, a grande maioria dos demais condutores tinha a companhia de alguém carnal criado à partir de relacionamentos adâmicos.
“Franklin lhe controla na agência, Sheila controla todas as suas decisões e... sou eu quem controla as suas ideias e vontades. Você não passa de um fantoche nas mãos de muita gente, Joel”.
— E você! É apenas a minha intuição fracassada e... para lhe ser muito sincero, me soa particularmente melancólico e nada ativista aos meus interesses. Sabe quem é você: apenas o meu lado criativo, a recepção negativa das minhas expectativas, ou simplesmente a reviravolta da infância sofrida de um bem sucedido publicitário. Julga-se tão poderoso Kadestar? Pegue estes papéis e desfaça-se deles. Destrua a minha carreira — seu grito de furor retiniu pelo veículo.
Palavras lançadas nunca serão recolhidas: isso a publicidade havia o ensinado. Repentinamente uma rufada de vento redemoinhou dentro do veículo pelo assoprar ruidoso e ininterrupto do vento aromatizado metrópole e escapamento de ônibus. Os vidros haviam abrido de forma orquestrada e inesperada, deslizando rapidamente ao interior da porta. Os papéis se espalharam pelo veículo ao banco traseiro e, alguns se perderam voejando pela via.
Joel afundou o pé no freio para impedir se chocar contra a grade de uma revenda de tintas, por avançar com seu veículo desgovernado sobre a calçada alargada para também servir como estacionamento.
Passou ofegante... por sorte, a revenda jazia fechada e poucos carros estavam estacionados no pátio interno do estabelecimento, atrás da gigantesca base tubular do imenso luminoso de próximos doze metros de altura e incontáveis refletores presos em hastes.
— Maldita elétrica — Joel deixou o motor morrer e socou o centro do volante, culminando em um buzinado surpreendedor, entretanto, brevíssimo. — Você está bem Joel... está bem. Não sucedeu nada de tão ruim e, não foi a primeira vez que isso aconteceu — levou as mãos à cabeça engranzando os dedos entre os ralos cabelos em uma ação instantânea, antes de descer do carro.
Contornou o veículo e notou ambas as lanternas piscando de modo acelerado, retornou até a porta do condutor para retirar a chave da ignição. Procurou o smartphone geralmente deixado no porta-objetos da porta ou próximo o acendedor de cigarros, mas não o encontrou. Desferiu alguns xingatórios ao notar ter esquecido o smartphone sobre a mesa da sala de estar, por Sheila se ter em uma viagem e não segui-lo até a rua questionando ter se esquecido de algo: chave, portfólio, amostragens e mesmo o impossível de se esquecer: o smartphone.
Abriu o capô do veículo ainda que tivesse consciência não poder solucionar o problema apenas olhando para ele.
“Disse: Joel não compre esse carro, mas não; o preço lhe pareceu tão sugestivo quanto um happy hour, beba quatro chopes e pague um... Tem de parar de duvidar da tua consciência, Joel”.
— Saia da minha mente... — ele se apoiou pela palma sendo envolta pelo mormaço do motor e, recurvou a cabeça expirando o próprio desprezo. O capô elevado rangeu ameaçando fechar e ceifá-lo a vida. — Você não é real... não é real. — sussurrou — Saia da minha mente. Não foi você quem fez isso, não foi. — e o capô pareceu estagnar-se acovardado.
“Problemas! Fique como está. Notou o estroboscópio da viatura? Você se meteu em uma bela encrenca, Joel”.
— Mãos à cima — dizia um militar direcionando uma semiautomática à sua cabeça — Já disse para levar as mãos à cabeça.
— Boa noite senhor policial. Tive uma pane elétrica e, estacionei para verificar. Sou publicitário, Joel Sabatine. Os meus documentos estão no meu bolso traseiro, os do carro também — neste instante já levava os pulsos à nuca. — Tenho um contrato para assinar em dez minutos, se puder se adiantar!
— Faço o meu: e você depois poderá fazer o seu trabalho — o militar ensartou a mão no bolso traseiro de Joel para retirar os documentos. Analisou-os.
— Uma pane elétrica... terei de buscar por um eletricista pra verificar o que aconteceu.
— Fique tranquilo. Chamarei um guincho para você e, poderá resgatá-lo depois, no pátio — o policial golpeou com a mão solicitando a aproximação do seu parceiro o aguardando dentro da viatura.
“Eu lhe avisei Joel. Nunca duvide da sua consciência”.






l Capítulo 1 l

Pámela Spellman sentia-se contrafeita desde o amanhecer, e, assim permaneceu mesmo após classificar Gramado como sendo a mais bela cidade a que fora trabalhar: a arquitetura e o clima úmido parecia desobstruir seus pulmões enquanto, seus pensamentos vagueavam entre seu comprometimento trabalhista e o sexto aniversário do seu filho Kevin, sendo comemorado naquela sexta-feira.
Quando se instalou no hotel, buscou com os olhos pelo corredor de quartos um lugar seguro para instalar a câmera, onde além de uma boa visualização teria toda a atenção voltada à movimentação do quarto 160: ocupado defronte ao que se hospedou. Gastou alguns segundos para permear a microscópica câmera no arranjo de flores acima do aparador chamuscado por tinta dourada.
Girou a chave na fechadura do aposento, logo lançando sua modesta mala sobre a cama. Dela retirou seu netbook e conectou a rede sem fio do hotel: feito isso e alocado o eletrônico sobre a cômoda, teve de retornar ao aparador para redirecionar o focalizar da filmagem.
Tornou ao quarto pela porta apenas escorada e conferiu ter tido sorte no segundo reposicionamento da câmera; tudo estava como deveria permanecer, ademais, a filmagem seria transmitida em tempo real ao seu departamento na intenção de saber se o investigado receberia algum visitante ou, partiria com algum material suspeito que pudesse desarticular toda a quadrilha.
Pámela inspirou prolongado e, expirou toda a sua exaustão deixando-se descair sobre o leito. A cama gelatinosa mareou pelo afronte enquanto o colchão de água reassentava novamente a condição, fazendo surgir vincos em sua testa.
Primeiro ela flexionou a impulsionar os joelhos sentindo o aconchego da cama. Aquele seria o último dos quartos que se hospedaria habitualmente, não por desleixo dos arrumadores ou pelas instalações, mas pelo excesso de tratos com os hóspedes. Contou três quadros em marchetaria com mais de um metro cada, outro de um equino e seu tratador e, ao final, o último demonstrando a rotina de um vinhedo do século dezoito —  supôs. — Contou três televisores fixados na parede relembrando que, o valor anotado em sua caderneta de custos era próximo ao honorário mensal de uma das professoras de Kevin.
Fechou os olhos e sentiu como presente o cheiro de banho de bebê, rememorando dos momentos em que seus olhos suplicavam proteção e o movimento dos dedos da mão ainda o encantava, porquanto, Kevin crescera rápido. Dia-a-dia espichava como se sua avó se agarrasse aos seus pés enquanto se fixava ao portal do quarto negando-se ir ao banho: agora com seis anos, Kevin perdera todo o apreço por uma boa ducha, mesmo que aos finais de semana suplicasse ir para qualquer lugar onde pudesse passar horas se molhando.
Seus olhos marejaram quando notou que seu filho saía mais cedo da cama para ligar o televisor quando amanhecia em casa, ali ficando por toda a manhã como em uma afronta por território. Antes de retirar a fotografia da bolsa, esgueirou os olhos para conferir a tela do netbook e se algo ocorria no distenso corredor: nada mudou desde a instalação.
Passou alguns segundos olhando para a fotografia na qual Kevin estava com o rosto maquiado uma teia de aranha, se divertindo no pátio da antiga creche em companhia de seus coleguinhas e tias. As crianças estavam alegremente alvoraçadas ao redor de um homem fantasiado de Pernalonga.
Reservou e tomou outra fotografia escolhida para a viagem, transpassando-a entre os dedos. A antiga fotografia em sépia registrava a alegria de Pámela quando criança, se agarrando as correntes do balanço. Seus longos cabelos chegaram a se arrastar no chão e apenas uma das suas sandálias se aventurava com ela, enquanto, a segunda assistia a tudo sobre a mureta da caixa de areia.
Pámela deslizou o dedo pela sombra do homem que a fotografara, e, por sua distensão soube ser próximas 18hs. A aparição escorria pelo chão a imagem escura e irreconhecível de um homem de parâmetros físicos normais ao lado de um cocuruto disforme que, Pámela sabia ser sua mãe sentada sobre uma toalha de banho... a última recordação dos pais juntos, a última vez em que esteve com ele até retornar para casa acompanhada apenas pela mãe, no dia do sétimo aniversário. Todas as vinte e quatro fotos da película de algum modo o enquadrava e, a que tinha em mãos fora a última sobrevivente dos ataques de furor de sua mãe.
Euclides as deixara para viver um romance proibido, revelado após voltarem do parque... Pámela na realidade, nunca soube com qual mulher seu pai se unira, mas estava, um dia, decidida encontrá-lo para dizer ter perdoado em todos os casos, mesmo a ausência em seus demais aniversários e ter deixado de segurar seus cabelos para assoprar as velinhas.
Anoitecera rápido quando anotou a trigésima pessoa passando por sua câmera e, Pámela sabia: eles ainda estavam confinados no quarto, homem e mulher de pele caucasiana e cabelos louros.
Os demais hóspedes não chamavam atenção por tão belos serem.
Na noite anterior, ao se deparar com a mulher no corredor, teve lampejos de já tê-la visto estampando a capa de uma revista de moda: não moda, mas, de vestidos de noiva, enquanto folheava tal revista aguardando para chamuscar mechas acobreadas em seus castanhos.
Era espantoso saber que aquela esquia e cativante mulher havia se envolvido com seu alvo, afinal, era proprietário de uma revenda de carros luxuosos que faria qualquer princesa dizer não ao belo cavalo do forasteiro e sim àquelas tropas escondidas abaixo dos capôs daquelas máquinas. Tamara havia escolhido o caminho mais fácil e agora estava na hora de pagar o preço.
Conferiu o horário: seus compartes da Polícia Federal ainda não haviam chegado a cidade. Teria de seguir os passos do casal até o momento menos tumultuoso, acertado  entre os envolvidos na captura de Bruno. Naquela noite, entregaria todos os seus relatórios e concluiria seus trabalhos junto a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), havia terminado o fluxograma hierárquico do bando e pensava no próximo dia seguir pra sua casa, — mesmo que tardiamente, desejava abraçar seu filho pelo aniversário e, dizer sentir muito não ter comparecido.
— Alô... — deu outra conferida no monitor — Já conseguiu toda a ramificação dos IP’s (internet Protocol) utilizados por eles para administrar as páginas das Ponto Com? Claro... claro, informe o Antônio sobre tudo e me mantenha informada, por gentileza. Envie tudo para o meu e-mail, gostaria também poder unir isso ao material que colhi nesses últimos trinta dias. — a camareira passou por sua câmera espiã e falou algo com Tamara agora com cabelos presos em coque e um belíssimo vestido branco pontilhado de cristais. — Tenho de ir... obrigada.

A camareira apontou com o dedo indicando que deveria descer as escadas e dobrar à direita para chegar ao local desejado e, Pámela fixou a atenção nos lábios da modelo sugerindo algo como restaurante. Jantariam no próprio hotel, fazendo Pámela riscar da sua carta de possibilidades uma eventual perseguição pelas ruas da cidade.


Continua.... 

Categoria:
Van Curtt Van Curtt já é citado dentre os maiores nomes da alta literatura contemporânea brasileira, e se consolida a brindar com você leitor seu segundo trabalho, "O Condutor", após o aclamado suspense psicológico "Tabuleiro" (2012), que o apresentou ao mercado e arrebatou a crítica por sua apurada técnica e diálogos sólidos. É hoje munícipe de Uberlândia-Brasil, sua cidade de origem.

Um comentário: