domingo, 10 de novembro de 2013

FOREIGN RIGHTS FOR GREED, READ THE FIRST CHAPTER / DIREITOS ESTRANGEIROS PARA GANÂNCIA, LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO.
VAN CURTT20:40 0 comentários


CAPÍTULO UM

Considerada com precisão todas as possibilidades de se acertar os seis números da loteria por um único jogo, as tuas chances não seriam nada animadoras e, terias exatamente uma única “sorte” em 50.063,860. Ponderada as possibilidades de vivenciar uma atriz hollywoodiana saindo de um bolo com seu vestidinho branco esvoaçante e pequena pinta sobre o lábio, serpenteando enquanto move os quadris e pisca um dos olhos de modo sedutor cantando Happy birthday to You, em teu próximo aniversário: podes considerar a tua “sorte” nula.
Analisando agora o cotidiano junto à possibilidade de ser encontrado morto em casa, por alguém que insistiu discar o teu número frustrantemente até se mover a fim de verificar o que houve de errado contigo: agora sim, a “má-sorte” estaria sorrindo para você.
Não existem números estatísticos que precisem a possibilidade de ser assassinado em sua própria morada e, caso isso viesse a lhe acontecer; em alguns dias, horas ou minutos, alguma “bizarrice da internet” se tornaria algo mais interessante à mídia que o teu drama, salvo ser uma pessoa de sucesso, escritor, astro do rock, apresentador de telejornal ou político.
Ricardo Santê’s obteve os melhores relatórios que um jovem burguês poderia impetrar, terminara o ensino médio com exatos dezesseis anos, o bacharelado com vinte, e em poucos anos já tinha fluência em três idiomas: números invejáveis a qualquer família de alto padrão, e para si, nada mais que obrigação. Seu pai, conceituado editor de livros não didáticos lhe transmitira palavras de um todo motivadoras ao sucesso, impressas pela ditadura intelectual que o moldou. Aos trinta e seis anos, Ricardo Santê’s assumiu os “negócios” do pai, uma editora cobiçada por investidores europeus e norte-americanos, publicando uma média de oito obras por mês, entre best-sellers canadenses, suecos, espanhóis, sul-coreanos além de recentemente ter contratado dois gênios da ficção policial estadunidense.
O conceituado editor-chefe da “Editora Palm” agora tinha a má-sorte sorrindo para ele como sorriu para Marcela Reis; assassinada por seu ex-marido enquanto lavava a louça, como também sorriu para Lídia de Souza: assassinada na varanda de sua casa porque os latidos de seu chilwauwa vagavam a madrugada e entravam pela fissura da janela de seu vizinho.
Ricardo agora não passava de mais um dado incapaz de ser mensurado rotineiramente: o dos que foram assassinados no próprio lar. Tendemos, ainda a imaginar que “crimes caseiros” serão sempre desvendados com facilidade e em alguns minutos, porque estão em regra ligados a pessoas do cotidiano da vítima, porém, quem seria capaz de apontar um suspeito a executor ou mandante de assassinato de um empresário que tem a constante presença em eventos anuais, como homenageado ou orador? Além de ser gestor organizacional de incontáveis instituições filantrópicas.
Em seus jantares, contava com a presença de autores consagrados, empresários, produtores, celebridades da música, jornalistas e diversas personalidades artísticas, contudo, sempre tomou de devida cautela a não reencontrar a mesma pessoa por mais de três vezes, e, foram atitudes como estas que fizeram se consagrar um referenciável homem do mercado livreiro.
Talvez o medo do cotidiano fora o achaque que encontrou para romper o relacionamento com sua “última namorada”, uma belíssima e recém formada designer de moda que desejava, simplesmente tornar-se cotidiana na vida de Santê’s, e, era ela quem discava até decidir se mover para se entender pessoalmente com ele, imaginando que Santê’s poderia naquele momento estar sentado no sofá em couro pregueado olhando para o telefone celular sobre a mesinha de centro gemendo dolorosamente como se geme um velho asmático, mas não. Não desta vez.
Ao passar pela portaria do audacioso condomínio Welfare Botanical, com seu bosque e lago conjugado, Fernanda estacionou seu utilitário defronte aquela luxuosa mansão, deparando-se imediatamente com a grande porta de entrada arrombada e com alguns vidros quebrados. Passou pela maçaneta perdida no chão com a devida certeza que agora serviria apenas como peso para papel ou como evidência de um crime bárbaro.
Fernanda ligou imediatamente à polícia quando encontrou a sala toda revirada, havia volumes de enciclopédia por todos os lados como se fossem insetos efemérides de setembro, que poluem de modo ubíquo tudo e turva-nos a visão. Flores artificiais arrancadas de seus vasos na estante estavam a pontilhar entre os volumes de capa dura e, o restante era silêncio.
Minutos depois, Fernanda delatava o fato da morte de Santê’s à polícia, e agora, a notícia de seu assassinato contaminava os editais de tabloides e emissoras mais rapidamente que a energia elétrica consegue chegar ao coração de um eletrocutado.
Agora, por decorrência de sua morte, vários editores e investidores babavam em seus Blackberry’s.
“Alô” (...) ele atendeu o celular ainda sonambulando.
“Denúncia de assassinato, homem, quarenta e cinco, morto em casa... dirija-se para lá imediatamente”. A ligação cortou e Marcelino aproveitou para acender o abajur, conferiu ao seu lado o rosto de sua esposa se contorcendo pela luminescência e admirou-a alguns segundos antes de se colocar de pé.
Para ele, fizera uma troca justa, como justo é se trocar um Fiat 147 por um feroz Chrysler 300c que há de se mostrar aos amigos e se orgulhar por dirigi-lo. Sua atual esposa 27 anos mais nova que ele, carecia de mais combustível que um Chrysler, e isso, impulsionava-o saltar cedo da cama para poder mantê-la.
“Onde? Mais um bandidinho favelado?” resmungou enquanto abotoava as calças buscadas no chão, devido à voracidade do “amor” de ontem... sua barriga flácida quase cobriu o cinto quando abotoou, mas, ele reorganizou enfiando-a sob ele. Sua nova esposa lhe exigiu uma melhor forma física e sua pele parecia ainda não ter sido informada e, não se adequara a sua nova condição, pois, após perder mais de 50 quilos adquiriu uma cinta de pele gelatinosa circundando a cintura, estranho e tão feio quanto presenciar a imagem de calças jeans dividindo as nádegas de um cantor sertanejo.
“Ricardo Santê’s foi o orador do evento que aconteceu hoje... Ainda estás dormindo, Marcelino? Um cara pra se espelhar: diretor da “Palm”. Foi assassinado há poucos minutos”.
Porque está gritando, merda. Pensou, mas, Marcelino reorganizou suas ideias e aferiu.
“Estou terminando de me arrumar, afinal; o que é Palm?” Sua barriga parecia não caber dentro das novas calças “sertanejas” que Flávia lhe obrigara a comprar.
“Palm Editora! Concedeu-lhe uma entrevista segundo a repercussão mundial de seu livro, Ganância, lançado originalmente em alemão e depois de alguns meses, traduzido para uma dezena de outros idiomas... O cara que autografou o livro pra você quando saía do evento de hoje”.
Marcelino passeou os olhos pelo livro recebido de Santê’s, fechado sobre a escrivaninha; quando por uma piada, disse a Ricardo ser fluente em russo e ele acreditou presenteando-lhe com uma edição russa de Ganância. Agora Marcelino estava agradecido pela morte de Santê’s e ter-se extinguido permanentemente do encontro onde o autor questiona ao leitor ter apreciado o livro.
“Merda... o livro é uma edição russa...
“É sim... Anote o endereço:” Cássio aguardou que Marcelino apanhasse uma caneta para enfim, tomar nota; confirmou também que o furgão da CN estaria no local aguardando por ele, com toda sua “equipe montada”.
Flávia finalmente despertou a esfregar os olhos e reclamou a claridade do abajur, no entanto, Marcelino já se direcionava ao interruptor...
— Aquele idiota do teu patrão não se cansa de você! — sua pergunta fora retórica e não exigia resposta. — Ainda são cinco da manhã e já se porá de pé? Passará o feriado comigo? — o dia de finados seria um bom dia para tocaiar-se entre as cobertas com Flávia, mas, o trabalho falava-lhe mais alto.
— Não se levante Baby Girl, logo seu “tiozinho” voltará! — e o estômago dela revirou.

***

Marcelino retirou seu Wolksvagem Golf da garagem, robusto e tão merecedor de se ter quanto o magnânimo Chrysler dos sonhos.
Rebaixou o vidro para fixar os olhos em uma das janelas da parte superior de seu sobrado, ainda compungido porque Baby Girl apagou as luzes e sequer teve laborado com ações ser também merecedora de seu amor e não apenas seu status e dinheiro; Flávia voltara a dormir como se Marcelino ainda estivesse lá, às vezes, sentindo-se melhor sozinha que sendo acordada momento a momento por seu roncar sonoro tão quanto o de um Boeing 747.
Eram exatas cinco e meia da manhã e o pequeno tumulto de pessoas já infestava a praça da igreja, como as incontáveis aleluias disputando espaço abaixo da branda iluminação dos postes. Noventa por cento das casas vizinhas a igreja estava com alguma luz de seu interior acesa e Marcelino tentou quantificar a porcentagem de vizinhos católicos que conseguira a igreja conquistar desde que se instalou ali, e, qual a outra porcentagem de não católicos que foram de modo indesejado acordada por aquela balburdia.
Deus tem mesmo censo de humor. Há 15 anos, seu pai lhe dissera que bem-aventurado deveria ser o que falece no “justo dia” de finados e, um ano depois de dizer isso, deixava acrescido seu jazigo no itinerário de finados de Marcelino, como data de seu falecimento.
Félix, naquela condição, mais recordava o policial Alex Murphy do filme Robocop em preparação para ser transformado em máquina, e nada evocava o policial ágil de quem Marcelino se recordava, havia tubos por todos os lados em uma versão impossível de se imaginar do tenente-coronel Felix. Aquele homem alto e forte parecia ter-se atrofiado sobre a cama do hospital... sua caixa torácica continuava ali, mas tão frágil quanto casca de ovo; a pele que vedava um amontoado de músculos parecia agora tão flácida quanto uma bexiga esvaziada e, foi assim que Félix deixou-o, após suportar bravamente os sete meses internado no hospital ao capotar sua viatura durante uma perseguição a assaltantes de banco.
Os toques de notificação de seu iPhone logo passou a incomodar: eram informações colhidas pela edição do Canal de Notícias e, calhou a se preparar lendo cada uma das mensagens enquanto prosseguia dirigindo.
“Santê’s escreveu três livros afora Ganância, que mais podem ser encontrados nas prateleiras de livros usados a valores risórios que em casa de leitores. O primeiro se chama: Exíguos utensílios aplicados à paleontologia, o segundo; Ignominia extraterrestre, e o terceiro, Verbetes e verbões. Seu quarto livro Ganância, foi contratado para ser lançado em 23 países e cogita-se o interesse de um estúdio de Hollywood estar negociando a adaptação de roteiro para o próximo ano”.
Ignominia extraterrestre: quem leria esse lixo?
“A capa da edição polonesa, traz a nota de um autor classiquíssimo dizendo: Ninguém parece entender melhor a mente de um psicopata que Ricardo Santê’s”.
“Um gênio que deverá tatuar seu nome dentre os melhores autores policiais da história: fora a crítica recebida de um jornal sueco”.
“Um tradicional jornal da Flórida classificou Santê’s como psicográfico de autores como Jack London e Oscar Wilde, dizendo ainda, que pouco se criou depois deles”.
“Em entrevista, o editor da publicação cubana passou mais de um minuto procurando palavras em mente para descrever o que significava ter Ganância em catálogo, e, demorou mais outros dois minutos enquanto tentava justificar as razões de ter investido 50 mil dólares em adiantamento ao autor.
A manhã se punha a despertar por sua aurora de tom acobreado, cálida, tênue e nostálgica; proveniente da lassidão trazida pela data de finados. Grande percentual das aleluias já sumira a vista de Marcelino, e então, cedera lugar a repórteres e curiosos, instalando-se no local e infestando-o como se fossem hienas carniceiras.
Marcelino seguiu com seu veículo ao ultrapassar os portões do Welfare Botanical, e passou a impressionado com a amplitude do loteamento, se questionando as razões de Ricardo Santê’s ter se mudado para a mansão mesmo que ela não dispusesse de toda infraestrutura exigida por milionários como ele: ressaltando a vasta quantidade de lotes apenas demarcados por estacas, e, poucas construções completas ou em estágio terminal de acabamento. Os lotes recorrentes eram amontoados de tijolos, areia, estruturas e betoneiras defronte os barracos onde se guarda cimento e demais componentes sensíveis à chuva. As construções seriam grandiosas a ponto de futuramente suportarem clinicas e pequenos Spa mas, na realidade, serviriam apenas de refúgio para casais em crise e com grandes labradores a urinar em meia dezena de quartos.
A mansão de Ricardo Santê’s rescendia absoluta muito próxima ao lago, como laivo de poder a estadear sua contemporaneidade e extravagância pela utilização abusiva de metal e vidro.
Cinco quartos, duas suítes, onze vagas para garagem, quadra de tênis e uma piscina colossal com três quiosques distribuídos em pontos estratégicos, completavam os mais de mil metros quadrados de área construída. Os pinheiros e grandiosas palmeiras deveriam agilmente se habituar ao novo ambiente, para assim, reviverem aqueles tons amostardados levando suas vegetalidades.
Algo ainda carecia de explicação: a razão de a loteadora liberar o povoamento do empreendimento sem que tivesse concluído as instalações de segurança; exigência de contrato e inquisição de futuros moradores do local. O Welfare Botanical fora surpreendido com a morte de Ricardo Santê’s quando, em seu sistema de monitoramento contava com apenas uma câmera em perfeito funcionamento, contudo, aquela não tinha foco nos portões de entrada e, estava direcionada a uma cadeira onde deveria se sentar o único vigilante que provavelmente dormia enquanto o assassino passava pelos portões ou saltava o muro.
Por razões como estas, o único computador onde se armazenava as imagens desapareceu tão rapidamente quanto o vigilante.
Neste momento, a revelação mais aguardada por jornalistas era saber sobre a possibilidade de a loteadora ter mensurado a repercussão negativa da fatalidade, e então, ter exigido que o vigilante “desse no pé” com as provas periciais, ou, teria o vigilante dado suporte ao assassino ou agira sozinho como executor de Santê’s?
O gramado externo emoldurando a mansão, ainda se dividia em quadrados perfeitos de uma grama quase morta e amarelada, buscando forças para fixar-se a terra e levar um pouco de clorofila àquele gigantesco tapete perdido entre o vermelho-poeira dos lotes vizinhos, ilhados por ruas asfaltadas.
Onde estão aqueles malditos? Marcelino desceu de seu Golf e, uma leva de poeira fora polvilhando sobre seus belos sapatos pretos envernizados. Sentiu apertar os escrotos quando girou para trancar a porta e a costura da calça imediatamente “enfiou em seu traseiro”. Calça do caralho... Calça apertada do caralho.
O furgão da CN contornava a rótula mais adiante tão vagarosamente que parecia amedrontado perante o gigantesco caminhão tecnológico enviado pela BDC para cobrir o caso.
Duas outras equipes estacionavam seus furgões para se ajuntarem aos demais jornalistas de quem os policiais não têm compaixão por cotovelar ou quebrar seus equipamentos, e, fora neste instante que a jornalista da TV-I saltou do carro de reportagem que tinha em ambas as portas o logotipo do canal adesivado; ajeitava seu belo “casaquinho” preto, enquanto seu assistente organizava seu material.
— Marcelino! ­— Alana correu até ele e Marcelino notou que o tempo não a causara o mesmo mal que causou a ele. Alana estava belíssima como se recordava dela há vinte anos e, ainda conservava os cabelos longos presos em rabo, considerando que ao passar dos anos, mulheres comumente cortam o cabelo rente aos ombros, acreditando que uma ação como esta as deixe mais novas e altere a data de suas identidades.
— Imaginei que ainda estivesse em São Paulo... — foi a primeira coisa que conseguiu dizer — Você não mudou em nada Alana! — disse ele, com os olhos, averiguando as raízes de seus cabelos e se já apresentavam alguns fios brancos.
— Emagreceu muito querido, o que aconteceu: estás amando? Fora esta a razão de ter caído na real e dado um jeito naquela pança? — ela gargalhou enquanto lhe abraçava de modo amigável. — Esta semana pensava nas nossas aventuras de universidade...
— Mesmo bebendo e comendo daquela forma, nem a comida nem a cachaça entrou na lista de ameaçados a extinção... — Alana desapegou do abraço e passou a averiguar suas vestes.
— Quando passou a usar calças tão justas? — meneou a cabeça risonha. — Se não se importar com um bom conselho, eu lhe dou: calças pré-lavadas ráhhh... — ela gesticulou com a mão.
— Casei-me com uma mulher que me obrigou a emagrecer, mas, têm problemas psicóticos e a cada mês obriga-me a comprar calças ainda menores: acredito que me fará comprar calças tamanho 36 qualquer dia desses.
Alana gargalhou, mas, Marcelino parecia estar sendo sincero...
— Desculpe-me os maus modos: é que se passou tanto tempo desde o nosso último encontro.
— Sim, claro. (...) Recordo de tudo como se tivesse acontecido ontem. Já estava há três meses em New York City como correspondente internacional e por todo aquele tempo, tive apresentado apenas três matérias de impacto à edição, e, no justo 10 de setembro de 2001 decidi sair do meu apartamento a procurar por alguma matéria interessante para apresentar na quarta-feira, mas, acabei “tropeçando em algumas garrafas de cerveja” e retornei às cinco da manhã tão bêbado que pouco conseguia andar.... Entrei, tomei um banho, desliguei o celular, fechei as cortinas e só acordei às três da tarde do atentado aos Estados Unidos... minha carreira fracassou e fiquei fora do mercado por mais de quatro anos. Desde então, nada voltou a ser como antes, no entanto, tinha boas reservas.
— Quantos jornalistas dariam um rim pra estar no seu apartamento naquele dia: tão próximo do Word Trade Center.
— Quem se importa com a cotação do Dólar, risco país, transações fraudulentas? Não tinha nada a ofertar à edição como furo de reportagem e foi ai que me encontrei com uma belíssima mulher de New Jerrsey e o final, você já sabe.
— Uma pena... todos nós sabemos que foi pra você difícil superar aquela tragédia. Veja... já estão trabalhando.
Um dos peritos do Instituto Médico Legal passou por eles balançando um saco de evidências no qual estava a maçaneta encontrada por Fernanda, que, ainda se mantinha vagueando pelo gramado visivelmente aparvalhada em suas próprias ações, falando ao telefone com seu advogado enquanto parecia estar sendo instruída por ele a permanecer calada durante o maior tempo que conseguisse e, passasse sem seu respaldo advocatício.
Pelo telefone, Fernanda desferiu alguns palavrões ao advogado e pareceu balançar turbando forças, mas, um oficial da polícia chamou sua atenção e tocou-lhe o ombro enquanto apresentava o papel que acabava de destacar da prancheta agora mantida abaixo de sua axila. Balançou o dedo em direção ao utilitário de Fernanda e, agarrou seu cotovelo para que a bela levasse seus olhos aos turvos dele. Apontou seguidamente para uma pequena placa em evidência no gramado, marcando o local onde fora recolhido o item pelo perito e pareceu convencê-la a não se direcionar até os jornalistas para falar com eles.
Toda a distensão da faixa de isolamento estava sendo completada por jornalistas e assistentes, buscando uma melhor angulação para trabalharem, mantendo a preferência pelas proximidades do BMW com o qual a vítima deixou o centro de convenções; veículo que já estava lacrado por fitas adesivas e aguardava pelo caminhão-guincho que deveria levá-lo à Divisão de Homicídios da Delegacia de Polícia Civil para ser aspirado e periciado.
O delegado chefe da Divisão de Homicídios desceu vagarosamente os dois degraus do tablado diante a grandiosa porta em madeira com detalhes em vidro, e, ajeitou a lapela de seu blazer, deixando em evidência o par de luvas brancas que calçara antes de entrar na mansão de veraneio de Santê’s. Ubaldo expeditamente pôs-se surpreso com o presenciado, torceu o lábio e se direcionou até Fernanda, agora parada ao lado de Eliete, mulher de compleição angelical e olhos atentos, contratada recentemente como advogada da “Palm”.
Eliete era uma mulher muito magra e muito loura, seus cabelos cacheados atingiam o alinhamento das costas e se possível for alguém ter olhos inteligentes, ela os tinha, escondidos atrás de óculos de armação. Trajava uma boa composição para quem teve sido acordada de madrugada para acompanhar a perícia do assassinato do patrão, saia rósea alinhada aos joelhos, camisa branca e sandálias de salto baixo, também róseas.
— Bom dia, senhoritas — Ubaldo balançou diante Fernanda e Eliete. — O pessoal do IML levará o corpo em alguns instantes e é por isso que eles ainda estão aqui. Desejam apenas registrar o momento em que passaremos por eles com o corpo alojado em um saco cadavérico, lençol ou prancha... a vida não é mesmo banalizada por esses caras?
— Difícil acreditar; um homem como o Ricardo ter sido vítima de um assalto em pleno dia de finados. —  Eliete meneou a cabeça e levou seus papeis ao abdome.
— Parecia ser um bom homem.... — Ubaldo retrucou — Mas, o que temos aqui não é uma cena de roubo seguido por morte: um homicídio é o que temos aqui.
— O homem do ano — Eliete dedicou sua atenção. — O que me instiga saber é por que alguém causaria mal a um homem como ele? Estamos diante a uma injustiça causada ao melhor ser humano em que tive a felicidade de conviver, mesmo que por pouco tempo.
— Quem mataria o homem do ano? — Ubaldo desvencilhou o olhar e pareceu buscar algo perdido no horizonte... — Seria a ex-namorada “chutada”?
— Estás a me acusar? Fui eu quem discou a polícia e agora diz que poderia ter sido eu a assassina do homem que amo? — Fernanda estava inconsolável.
— Mandante soa-te melhor que assassina? Posso estar supondo precipitadamente, mas já acompanhei tantos casos de assassinato passional por minha carreira que, não poderia deixar de dividir minhas suspeitas contigo. Recebeu algum presente de Ricardo recentemente?
— Nunca quis nada que me fosse dado sem o meu mérito, senhor delegado. Todas as coisas que conquistei até agora, são fruto de muito trabalho e dedicação... não vim de uma família conceituada como a de Ricardo e tenho apenas o que me é por  direito.
— Seu utilitário compõe o que você chama de mérito próprio? Foi um presente de Santê’s, estou errado?
Eliete rebaixou os olhos e preferiu não participar do debate, visto estar ali como representante da vítima e, as fundamentações de Ubaldo passavam a ser possíveis, já que, Ricardo teve presenteado Fernanda com o veículo, dias antes de ser assassinado.
— O senhor está errado, mas, assim como fui instruída por meu advogado, falarei apenas sob juízo. Ele já está vindo pra cá.
—  Por que não contribui com ele, pedindo para aguardar por você na delegacia?
Eliete arranhou a garganta e passou a se despedir por apenas um movimento de cabeça, mas Ubaldo mais uma vez solicitou-a.
— Eliete, não  é mesmo?
— Sim... este é o meu nome.
— Advogada da Palm?
— Não precisaria realizar uma busca aprofundada no Google para descobrir isso. Espero não ter gastado esse tempo, senhor delegado. Estou a representar os interesses da vítima e,  claro, preservar a imagem da “Palm”.
— Bom saber, mas, podes me acompanhar para se explicar, ou por menos, tentar explicar-nos o porquê de Santê’s ter discado o teu número segundos depois de ter sido baleado, enquanto se arrastava pelo tapete, deixando-o tão lambuzado de sangue como deixou o celular. Bendito seja o Steve Jobs por seus investimentos nas  telas touch screen... o sangue não penetrou no aparelho porque a tela protegeu os circuitos e então, pudemos buscar as chamadas sem pedir autorização à Anatel.
— Está ai o motivo de eu estar aqui... recebi um “toque em meu celular” do telefone de Ricardo e, quando acordei para atender, o celular já havia parado de tocar.
— Não retornou a chamada? Preferiu retirar o carro da garagem e vir até aqui ao avesso de discar o número dele e perguntar o que houve acontecido para fazê-lo discar o teu número durante a madrugada.
— Estava sem crédito.
— Uma advogada da Palm que não tem dinheiro para colocar crédito em seu celular? Quanto têm lhe pagado pra advogar para a Palm com todos aqueles processos gerados por aquele “simbologistazinho de merda”?


— Represento os direitos dele no Brasil e, poderia abrir um processo contra o senhor, caro delegado.
— Deixemos esse cara pra lá... terás de me acompanhar para prestar depoimento, pois, poderia Ricardo, antes de morrer, ter discado o número do celular de quem o matava para deixar-nos uma linha investigativa: uma pista a qual seguir? Poderias também, estar se “enroscando” com ele e, ao se abrir pra você dizendo que voltaria para a ex-namorada a quem presenteou com um utilitário, teve-o matado: não?
—  Não: eu não o matei.
— Ainda acredito que deveria investir no ofício da escrita, ser escritor de livros policiais, sabia? Tenho boas linhas de raciocínio para casos como este, pois, Santê’s poderia ter se cansado de ser um “cara tão bacana” e então, contratou alguém para matá-lo na própria casa antes de decair no álcool e se isolar nesse lugar como um cão em seu leito de morte. Pôde também querer se tornar um roteiro para Hollywood e por isso, contratou alguém para matá-lo enquanto se mantinha no topo de sua carreira, fazendo de si um mito a ser vogado por anos e mais anos: Mas não... Caso quisesse se tornar roteiro, não presenciaria o sucesso de sua bilheteria e, então, não valeria a pena.
— Com certeza tens uma imaginação que não invejo — Eliete explorou sua habilidade de sorrir ironicamente, mantendo toda vértice esquerda do rosto ainda imóvel.
— Acompanhem-me, meninas... dessa forma, tudo ficará mais fácil.





CAPÍTULO DOIS


Alguns jornalistas já transmitiam ao vivo aos plantões de suas emissoras mesmo munidos de pouca ou quase nenhuma informação sobre o acontecido dentro do limite imposto pela Polícia Militar. Marcelino concluía seus trabalhos com seu câmera e passou a limpar o borrifado de suor que parecia minar de sua fronte a escorrer pelo pescoço ao centro de seu tórax.
Alana hesitou por um instante e voltou sua atenção a ele, moveu os lábios dizendo ou predizendo algo a sua afeição e, pela distância impetrante entre eles, Marcelino não pôde notar os olhos dela colorindo ternamente. Rebaixou o microfone e suspirou antes de ter o ombro tocado pelo homem que a acompanhava e entrava no veículo para aguardá-la. A grande maioria de repórteres permanecia onde estavam, cochichando, alguns poucos com os que não se envolviam em processos de difamação uns aos outros.
Tony estacionava seu Citroën C4 naquele momento, e, se negou a sair de casa em sua declarada folga sem contar com a presença de sua parceira. A inspetora Joyce estacionava seu Volkswagen Fusca ao lado do Citroën, pois, preferiu dirigir o próprio carro para poder colocar um ponto final naquilo o mais rapidamente possível e, cumprir as promessas do dia.
Os amigos de Joyce gargalhavam quando dizia não ser uma pessoa muito interessante para se conhecer em algum evento cotidiano, contudo, fazia uma razoável avaliação de si mesma, e, sabia ter traços mais harmônicos que setenta por cento da sociedade: um belo quadril conquistado no pilates, cabelos longos e negros, lábios afilados, além de olhos negros e atentos contrastados com sua pele muito alva. Ao estacionar, alinhou a barra de seu blazer, aprumou também a laçada do lenço em seu pescoço e buscou uma maleta pericial no banco de trás, inspirando pesadamente.
Ela esquadrinhou com olhos aquela vasta quantidade de profissionais da imprensa e espalmou quando passou a ser rodeada por eles, golpeando microfones e enfiando gravadores em sua boca como a uma mãe bamboleando uma colher de xarope na “fuça” de um bebê.
— Acalmem-se... acalmem-se, pessoas — ela assentiu com uma conspecção tácita e empurrou alguns dos gravadores com a palma da mão — Não direi nada porque, eu não sei de nada. Não posso responder a pergunta alguma se acabo de chegar, “céus”.
— Pode nos adiantar algo? Ricardo Santê’s teria sido morto por alguém que teve com ele no evento de ontem e acompanhou-o até aqui para matá-lo ou, quando chegou em casa, o assassino já aguardava por ele? — um dos jornalistas questionou e Tony contradisse:
— Posso dizer de modo generoso que sois um bando de surdos e desocupados, pois, já expusemos não termos nenhuma informação até o momento, porque acabamos de chegar para só agora fazer as anotações, registrar as evidências e fundir as suposições... Poderiam estar dormindo, mas não: vocês estão aqui. — resmungou.
Marcelino imediatamente relembrou do aconchego de seu lar e o quão agradável era permanecer horas e mais horas roçando seus calcanhares lixentos nos tornozelos joviais de Flávia... relembrou as gungunas fanhosas e melodramáticas de Baby Girl, deixada só para que pudesse se exaurir no ofício do jornalismo. Marcelino correu até Tony e imediatamente socou o peito do inspetor enquanto o jornalista do canal 19 tentava desvencilhar-se do tumulto. Joyce empurrou-o e a fúria cegou-o momentaneamente quando cruzou sua esquerda na maxila de Tony e lançou-o aos braços de Alana, que rebateu pondo-o em combate de forma similar a uma “rincha de escola primária”.
Agora Marcelino sentia o joelho de um dos militares espetando sua vértebra, esquálido como uma caricatura da morte por desnutrição, o policial até um tanto macilento, seria lançado a metros de distância caso Marcelino levantasse seu corpanzil ou girasse o corpo, mas, era ele agora o foco de toda a imprensa e flashes das potentes câmeras.
— Você errou cara, você errou... seu jornalistazinho de merda! — Tony recurvou para falar ao pé de seu ouvido. Vou te ferrar maldito, vou te ferrar de modo que vais pedir pra nunca ter se tornado jornalista.
— Acha que gosto de estar aqui olhando pra você? Crê que não preferia estar na minha casa descansando que sentindo o fedor desse seu perfume barato?
— Não gostou do meu perfume? Veremos se mais gostarás do cheiro das celas — Tony acompanhou com os olhos o reerguer de Marcelino. A poeira parecia ter-se impregnado em suas roupas mais profundamente que a de comerciais de sabão em pó e, antes de bater a poeira, Tony concluiu: —  Vejo você no tribunal.
Agora os microfones já não eram lanceados ante a face de Tony como antes e, pôde então progredir sem mais interferências. Joyce prosseguiu caminhando ao seu lado depois de passarem por baixo da fita zebrada e penetrarem no gramado da residência de Ricardo.
—  O que temos aqui? —  questionou quando parou ao lado de Ubaldo.
— Assassinato: os peritos apontam que já deva ter se passado algumas horas. Tudo pode ter acontecido por volta das duas da manhã.
— Vai ficar roxo... —  Joyce comentou meneando a cabeça. —  Esqueça isso Tony, ele provavelmente teve uma manhã difícil.
Tony pôs-se caminhando ao interior da mansão. Contou quatro poltronas Barcelona de ambos os lados de um grande sofá em couro natural e, tentou remontar a eventual briga de Ricardo com seu homicida, mas, nenhuma das sequências dos livros espalhados no chão demonstrava terem começado da porta ao interior ou do interior à porta de saída, afinal, o corpo não estava em evidência na sala.
— Onde está o corpo? — Tony questionou a Ubaldo.
— Na segunda sala...
— Registre tudo Joyce, não quero perder nada. — Tony soprou dentro da luva antes de calçá-la e ajoelhar diante o volume vinte e dois da enciclopédia Barça. Mais a frente, estavam os volumes um, dois e três da coleção, alocados cuidadosamente sobre uma das poltronas.
Tony caminhou ao som dos flashes da Nikon de Joyce, girando na própria base para formar uma fotografia panorâmica da cena do crime.
— Vê a mesma coisa que eu? — Joyce moveu uma das sobrancelhas e caminhou até a cristaleira em vidro translúcido, às costas do sofá. Os copos e taças impecavelmente limpos, a adega elétrica carpindo quase silenciosamente pela refrigeração das garrafas de espumante e vinho. — Ele esperava por alguém, mas este alguém pode não ter chegado a tempo de dividir a última taça, ou, chegou e pôs fim a tudo isso.
— O assassino de Ricardo chegou antes dele. Lamento dizer, mas a adega poderia permanecer ligada sucessivamente, dia a dia, aguardando por algum encontro casual, mas não foi hoje o dia. Conforme a minha experiência como investigador criminal, esta desordem foi criada porque o assassino procurou por algo que pode não ter encontrado, ou pôde ter forçado Santê’s a procurar por algo que nem mesmo ele se recordava onde teve guardado.
— Um testamento? — Joyce recurvou diante a mancha escura que não fulgurou sob o efeito do “Luminol” e parecia ser café ou shoyu e, fotografou. — Onde está a mulher que encontrou o corpo, a namorada dele?
— Está seguindo para a delegacia, por isso, o meu trabalho se encerra agora. Podemos ir ao corpo para que eu possa deixar esse lugar o mais rápido possível? Tenho muito a fazer ainda hoje. — o delegado estava ficando impaciente.
— Claro — Joyce parecia ter tirado todas as fotos possíveis e, agora terminava de realocar os itens tirados de sua maleta. — Difícil acreditar que Santê’s não tem um único herdeiro que poderia querê-lo morto, alguma artimanha financeira ou envolvimento com a máfia.
— Ele é o cara de quem falava dias atrás. Editou na Alemanha e só por os prêmios que conquistou, auferiu mais dinheiro que você conquistará por toda sua vida. Diz-se que o livro só chegará por aqui em dois meses e, caso tenha um livro a editar este ano, aconselho que desista e só edite no próximo. Não há chances de alguém conquistar qualquer prêmio literário tendo Ganância como concorrente e, caso insistisse em editar venderias apenas três livros, um para a tua mãe, outro para o teu pai e depois de alguns meses, para tentar impulsionar as vendas, compraria o teu.
— Não compraria um livro meu?
— Não tenho certeza... Hás vezes sim. — ele sorriu.
A luz trêmula que filtrava a grande vidraça panorâmica, desenhava no piso as folhas da palmeira a cada rufada de vento, ludificando serenidade ao fundo das conversações constantes. Tony subiu a modesta rampa que levaria até a segunda sala e passou por ela analisando cada centímetro de seu corrimão. Joyce seguia metros atrás dele.
O cadáver de Ricardo Santê’s estava estirado de bruços sobre o carpete, tinha os membros inferiores torcidos, parecendo ter se levantado da poltrona após ser alvejado  e então, ao não ter encontrado forças para buscar por ajuda, quedou ao chão resfolegando vida. Por isso teve retirado o celular de seu blazer e discado ao telefone de Eliete. Em seu dorso, nenhuma mancha de sangue podia ser notada em uma primeira verificação, o terno prateado em alta costura por qual se vestia ainda era o mesmo que estava trajado no evento e invejara tantos dos convidados.
A seus pés, a poltrona Egg teve um pouco girado para a esquerda e isso evidenciava Ricardo estar sentado no exato momento em que fora alvejado, ademais, nenhuma pessoa de bom gosto, em plena lucidez, deixaria uma Egg parcialmente torcida e, deste defeito Ricardo Santê’s não era dotado.
Seus olhos miravam a mão esquerda ainda segurando o lenço com o qual teve enxugado as lágrimas que desprendiam de seus olhos enquanto seu homicida “lia sua sanção de morte”. Ubaldo houve retirado o celular de sua mão direita e já o tinha alojado em um dos sacos de evidencias, minutos antes da chegada de Tony e Joyce.
— Eles entregam algum tipo de troféu em comemorações como essas? —  Joyce voltava a fotografar. Direcionou-se ao aparador e encontrou dois troféus. Aproximou-se deles e levou o segundo dos troféus próximo a sua face, para ler a classificação. — Filantropo do ano: parece que o nosso rapaz era mesmo muito popular... recebeu dois troféus no evento de ontem.
— Em algum momento Jesus disse: oferte aos pobres sem exigir nada em troca. Não exigireis recompensa por ser bom, e deverá doar tudo o que te sobrar e não for direito guardar. Mesmo que Santê’s não tenha exigido recompensas, ele assinava as doações da Palm e pecou, merecendo a punição.
— Você não é muito bom nesse negocio de citações de Jesus, Tony. Um charlatão: o joio do saco de trigo? Acredita ter direito de se referir a ele nesse tom?
— Quem sou eu pra falar assim de qualquer um desses caras? Sou apenas o faxineiro que limpa a sujeira, que revira seus armários e armazena em pastas tudo o que a mídia não merece saber — Tony se aproximou do cadáver e, do bolso traseiro de sua calça retirou a carteira que agora folheava —  Pode anotar isso? Brincadeira! Cento e cinquenta reais: Ricardo Santê’s tinha apenas cento e cinquenta reais na carteira.
Joyce se aproximou para conferir.
— A carteira não foi mexida. Qual ladrão sacaria a carteira da vítima, furtaria dinheiro deixando apenas cento e cinquenta reais e, além; ainda a recolocaria em seu bolso? Um baixo valor para se encontrar na carteira de um cara como ele.
— Hoje com tantas formas de investir e quitar a vida, ter dinheiro na carteira já não é hábito de caras como ele nem eu, mas, diferentemente dele, não carrego dinheiro porque o meu honorário acaba na primeira semana do mês. — Tony girou a carteira de trezentos dólares e retirou alguns documentos para verificar, até, ter em mãos um talão de cheques — espreitou  os olhos. — Quem ainda usa talão de cheques?
— Repassava as doações em cheque... era uma forma de se exibir aos gerentes dos bancos onde os beneficiários mantinham conta. Porque, caso fizesse transferências cibernéticas, os gerentes não teriam um cheque seu entre os dedos e a transação poderia nem mesmo ser notada, entre as movimentações de um dia turbulento... — Joyce parecia mais interessada nos supostos movimentos do assassino que em detalhes que poderia levantar em outra ocasião. — O canhoto está preenchido? Envie para a perícia: dispomos de pouco tempo.
    Tony suspirou, buscou um saco de evidências no bolso dianteiro da calça e enfiou a carteira nele. Joyce recurvou, deslizou os olhos pelo tapete até a mancha de sangue perfeitamente agrupada, como a lava do Etna quando transborda a sua cratera e colore tudo de vermelho, seu vermelho negro. Retesou cinco passos e novamente voltou a se aproximar enquadrando o corpo, fazendo com que o reflexo daquela “tragédia” crescesse em sua retina, rebaixou e alojou a maleta pericial no tapete para ajoelhar-se.
— Tem ideia do diâmetro de uma bala apenas olhando para o orifício? — seu indicador enluvado quase tocou a têmpora de Ricardo, demonstrando uma perfuração de bala acima da sobrancelha esquerda. — O atirador poderia estar aqui, quando disparou. — houve se levantado e retesado um passo; uniu as mãos em posição de disparo. — Então: o atirador não é tão bom com armas de fogo, ou, a vítima girou a cabeça e isso fez a bala ricochetear dentro do crânio, culminando em um laudo de hemorragia cerebral.
Tony estava distante e torceu o pescoço para conferir o dizer de Joyce, segurou o blackout da vidraça por sua borda e arrastou até o centro. O pé direito da sala acercava os quatro metros de altura e a cortina alongou como a barra de uma saia camponesa, quando puxada por uma criança. Ágil, Tony caminhou até o outro vértice da vidraça para, trazer a segunda parte do blackout ao centro, impetrando nela a escuridão para que o Luminol pudesse fulgurar junto a resíduos de sangue. Sentiu o êxtase que Ricardo Santê’s deveria sentir ao arrastar as pesadas cortinas da Palm, o êxtase do poder que deveria correr por sua carótida e inundar o cérebro de adrenalina, enquanto deslizava as cortinas de seu escritório na editora; instalada na cobertura do Wright Business Tower, um dos maiores empreendimentos corporativos da cidade, ocupando além de dois pavimentos, o terraço, onde, em heliponto próprio descia alguns dos mais consagrados autores da atualidade.
Certamente algum dos autores suecos da Palm poderia dar ao inspetor Tony alguma linha investigativa ainda não explorada, mas nem mesmo Santê’s conseguia com facilidade o telefone deles sem passar por seus ferozes agentes literários.
— Então o assassino não fechou a cortina depois de executar a vítima!
— Pôde ter imaginado que ninguém viria até aqui para procurar por ele, por menos, nas primeiras horas de hoje e, teria tempo para desaparecer, como deva ter acontecido — ainda acocorada, ela elevou a cabeça e confirmou: — A positivo.
— O que? — Tony conferia as bordas do blackout — Não tem sangue nas cortinas.
— “A positivo”, verificaremos com os rapazes depois de eles realizarem os exames. Mas, ao menos que o assassino também tenha o sangue A positivo, temos aqui apenas o DNA da vítima.
— Sem copos sujos, ele não tocou em nada depois de entrar e, garanto que só quebrou a maçaneta depois da execução...  deve ter entrado por alguma porta dos fundos — Tony rebateu.
— Garanto a você que: lá nos fundos, temos uma porta de vidro quebrada. — Joyce acocorou.
— É o que ainda me pergunto desde o momento em que cheguei aqui: se o executor conhecia a planta da casa...
O som do flash da Nikon de Joyce mais uma vez cortou o raciocínio de Tony e, ela passou a engatinhar até a maleta para retirar a régua que cuidadosamente alocaria ao lado da marcação de sola de sapato encontrada sobre o tapete. A régua fora fotografada junto a uma plaqueta com o número 27.
— Evidência número 27, torrões de terra provenientes de solado de bota Off Road. Ricardo Santê’s não seria o tipo de cara que calça uma bota de solado borrachudo e sai por ai se orgulhando disso; então... temos aqui as marcas da sola do calçado do assassino.
— Então o nosso assassino supostamente seria homem!
— Ou não: pode também ser uma mulher que se vestia como homem.
— Bem: já tenho algumas anotações — disse Joyce anotando em um bloco de papel a distância do último respingo de sangue perante a poltrona. — Quando Ricardo Santê’s passou por aquela porta, os livros estavam todos em seus devidos lugares e a estante estava impecável, como fora deixada. Por isso ele continuou a entrar sem notar a invasão, no entanto, caso tivesse encontrado a sala daquela forma, certamente teria discado à polícia e evadido. Não retirou nem mesmo a gravata, não desabotoou o blazer porque foi surpreendido pela presença dele, bem aqui... enquanto passava pela rampa de acesso para esta sala — ela apontou para baixo e moveu um dos braços em circulo. — Ricardo deu-se de fasto e esbarrou naquela mesa, derrubando assim o porta retrato — apontou com a palma o porta retrato no chão: tinha o vidro quebrado — Mas, o assassino prosseguiu caminhando com a arma empunhada, pôde ter perguntado onde estava o que viera buscar. Ricardo disse não saber do que se tratava e foi coagido a justificar... algum papel, cheque, testamento, contrato, não posso pressupor, poderia ser tantas coisas. O Assassino fez com que a vítima procurasse entre os livros enquanto coagia-o sob a mira da arma. A vítima disse não ter o que lhe seria roubado e, só então fora convidada a se sentar na poltrona para... — Joyce fora interrompida.
— Já acabaram? Viemos buscar o corpo.
— Só um instante... — disse Joyce ao jurisperito do Instituto Médico Legal e prosseguiu como se aquela voz viesse de um fantasma e, ele não estivesse ali com as mãos cruzadas no peito — ...colocou-o sentado na poltrona para que ficassem claras as razões pelas quais iria morrer. Concluindo: o assassino está mais próximo de nós que podemos imaginar.
— Terminamos — Tony passou pelo jurisperito e palmou seu ombro. Um segundo homem se aproximava, segurando um saco cadavérico. — Envio as solicitações assim que concluir por aqui.
— Perfeito... — confirmou o jurisperito.
A linha de raciocínio de Joyce se voltou a Fernanda, primeira pessoa a encontrar a vítima e que, certamente teria suas digitais espalhadas pela mansão por sua constante presença entre aquelas paredes. Teria digitais suas espalhadas por todas as partes e certamente alguma das digitais que Eliete colhia na cristaleira a pertencia. Obteve outras digitais no aparador e no controle remoto da TV LED 55”.
Joyce ousou se adiantar e invocou Tony a buscar possíveis digitais de Fernanda nas capas dos volumes Barça, ainda espalhados pelo chão. Circulou os locais onde estavam os livros e catalogou cada um deles antes de aplicar a luz arroxeada e coletar as digitais em pequenas fitas adesivas.
— Duvido que a vítima convidasse a namorada para ler algumas páginas de enciclopédia. Então, caso encontremos algumas digitais dela aqui, isso pode nos ajudar a futuramente remontar a cena do crime, ao fato de realmente ter sido ela.
— Não esqueça que estamos tratando de um editor e escritor... sabe-se lá o joguinho que conseguia promover com a namorada, usando apenas uma enciclopédia e um par de dados. — Tony iniciou a caminhada ao quarto da vítima, e encontrou-o organizado... colcha e lençol estirados, todos os seis travesseiros sobre a cama.
Joyce acompanhou-o até o quarto. Os demais cômodos da residência pareciam não terem sido tocados, nada parecia ter sido roubado e, aos fundos, apenas os estilhaços da porta deslizante em vidro apontava uma anormalidade.
Já passava das dez horas da manhã e Joyce estava faminta, finalmente concluiu suas anotações e agora aguardava que o saco cadavérico fosse fechado e o corpo levado ao IML para ser periciado.
— Será que conseguirei encontrar um bom restaurante aberto hoje? — Tony perguntou.
— Com certeza. Não me mataria na beira de um fogão no dia de hoje — girou o pescoço e viu Tony se distanciando (...) era esse o seu modo de se despedir, sempre deixando uma pergunta a ser respondida.
Desapoiou o ombro do batente da porta e decidiu partir junto a Tony, enquanto o pessoal do IML içava o corpo e pareciam concluir.
No lado de fora da mansão de Santê’s ainda se mantinha uma modesta concentração de repórteres e curiosos. Uma caminhonete Ford preta, passou a deslizar vagarosamente pelas ruas do loteamento e, por uma única manobrada foi estacionada muito próximo a aglomeração de pessoas. Dela desceram dois homens em trajes completos: advogados da loteadora.
Os advogados não empurraram as gravadoras, não socaram os repórteres e tão menos concederam entrevista, contudo, enquanto todos os jornalistas estavam “concentrados” neles, os homens do IML passaram a deixar a cena. O tumulto ressurgiu  entre eles e, os jornalistas correram, tropeçando um nos outros até que o furgão partiu e nada mais parecia dá-los motivo para permanecerem ali.
Pediram a evacuação do empreendimento imediatamente por saberem que muito já havia sido transmitido pelas antenas dos furgões ou pela “mágica da internet” e, foram gentis dizendo-lhes que aquela era uma área particular e para prosseguirem com as gravações, teriam de lhes apresentar uma autorização escrita.

***

Joyce ainda sentia que algo em sua profissão a fascinava, e, talvez fosse seu notório interesse pelas sombras obscuras da mente humana. Pensava que o marido transtornado que mata a esposa após arrancá-la de dentro do carro estacionado diante sua casa, deve ser julgado de forma diferente que o adolescente que chacina os pais visando colocar as mãos nos bens da família e, agora deveria compreender qual linha de raciocínio tomar para definir suas ações com coerência embasada na cena do assassinato e se o assassino de Ricardo Santê’s fora imaturo ou tão calculista quanto os integrantes da Ku Klux Klan.
Joyce passou pelos portões do Welfare Botanical enquanto se mantinha no cume da sua desatenção, talvez porque sentia fome e ouvia o ressonante fragor vindo de seu estômago. Estava desconcentrada e, em suma, sabia não poder haver ser humano contente por estar a trabalho em pleno dia de finados.
Acreditava que a implicação de analisar e juntar provas não carece de se ter uma mente insana ou esquizofrênica, mas, para se compreender as razões cabais de um assassino efetivar seu transtorno e consumar o crime, deve-se então ser dotado de prudência e respeito a sua sanidade. Caso sua psique pudesse tomar suas atitudes, abaixaria o vidro quando parou para que um jovem casal pudesse atravessar a faixa de pedestres e adquiriria um dos pacotinhos de rosquinhas que o flanelinha balançava ao lado de seu veículo e pareciam apetitosas.
“Mamãe...” ela atendeu o celular e, a música que vazava a lona da picape atrás de si passou a aborrecê-la imensamente. “Tem um babaca com uma picape na minha cola”.
O resultar de seu surto de loucura no dia de ontem, foi ter deixado a mãe sentada na cadeira do restaurante japonês, enquanto de forma arrogante, dizia não se sentir bem naquele ambiente e odiar a ideia de comer carne crua. Joyce fora além dizendo não concordar com o fato de ter de comer arroz pelo hashi e não dispor de tempo para se alimentar grão a grão.
Levantou-se da cadeira e, ao fazê-lo, argumentou “ser mesmo saudável”, ter de abocanhar um pão com mortadela enquanto se concentra em todas as marcações do cadáver encontrado e, tenta compreender o exato momento em que seu sopro de vida teve-o deixado.
“Nunca deixarás de ser assim, e, eu deveria ter me acostumado com isso há muito tempo, minha filha” o tom de sua voz  não demonstrava rancor.
“Desculpe-me mamãe... eu perdi o juízo e, ficaria contente em receber uma nova chance a me redimir” Joyce terminava de colocar os fones de ouvido para manter as duas mãos ao volante.
“Só queria que descontraísse um pouco e pudesse notar outras tantas coisas que acontecem ao teu lado; que pudesse sentir outros aromas e sabores. Deveria mais se atentar a vida que passar o dia perseguindo a morte”.
“Somos bem diferentes, mamãe. Sou inspetora e você cardiologista, então, as mesmas coisas não nos fascinam”.
“Sei que não é direito cobrar isso de ti, mas, queria  que estivesse melhor. Liguei pra saber como está e se já foi até o tumulo dele”.
“Mamãe, eu estou bem. Já se passaram três anos e eu estou bem”.
“Quer que eu vá com você? Posso suspender o plantão. Tenho dois colegas a quem pedir pra cobri-lo pra mim.
Joyce sentiu a lacrimação embolando em sua traqueia, e que, seus olhos humedeciam gradativamente junto a respiração se tornando cada vez mais carregada. Doou tempo para que o motorista da caminhonete passasse por ela, fazendo as batidas descompassadas do rap que ouvia serem sentidas dentro de seus pulmões.
“Juro que te convido a ir comigo ao cemitério quando for até lá”.
Agora Joyce estava chorando.
Há três anos, enquanto se mantinha no educandário, seu filho teve desmaiado aos braços de uma das educadoras e sido levado às pressas para um hospital não muito distante. Após Joyce ter aguardado por mais de três horas sentada em uma cadeira plástica por alguma melhora no quadro clínico da criança, veio-te um homem alto e ruivo a trazer uma prancheta com o laudo definitivo e irreversível do falecimento: fora aquela a pior notícia recebida por ela em toda a sua existência, nem mesmo a embolia pulmonar que acometeu seu pai a surpreendeu tanto, pois Silvano tinha problemas circulatórios e tanta fumaça acumulada em seus pulmões que fê-los calcificar enrijecerem como pedra.
 Após receber o informe de falecimento, preferiu não acusar o hospital de negligência médica sem que antes fosse concluída a necropsia, e apenas depois da conclusão que concedeu entrevista, alertando aos administradores do educandário que iria mover um processo contra eles, e nem mesmo o melhor dos advogados os livraria de suas acusações.
“Irei fuder vocês quando a verdade surgir!” então: a verdade lhe fora revelada.
Quando raspada a cabeça da criança para ser averiguada alguma possibilidade de marcações cianóticas consequentes de queda, fora encontrada uma mancha escura na região occipital do crânio e, isso fora circunstancial para direcionar os investigadores da Divisão Investigativa da Polícia Civil, onde, ao término se confirmou que por um desvio de coluna, a mulher que naquele dia banhara seu filho, usava do auxílio de uma banqueta em acrílico, para que pudesse ensaboá-lo sem que carecesse se recurvar para fazê-lo e, fora esta a causa da morte: ele caiu de costas de cima da banqueta por negligência da mulher.
Joyce agora não pensava apenas em seu falecido filho, mas, nas consequências do ocorrido; pois, o casal de proprietários do educandário fora julgado e condenado junto a educadora e, os filhos do casal obrigados a residirem com o tio, que agora respondia a acusação de abusar sexualmente da menina com apenas seis anos de idade e cabelos louros cacheados.
Então, a meninice morreu dentro dela e, a menina se tornou ao mesmo tempo agressiva e introspectiva.
Joyce olhou dentro de seus olhos quando soube que ela compareceria na assistência municipal para se encontrar com a psicopedagoga, e, pôde então pedi-la para se manter forte enquanto a abraçava e chorava.
“Está mesmo bem, minha filha?”
“Sim estou, mamãe...”
“Pois bem, espero que possamos nos encontrar a noite.”
“Até mais, mamãe...”
Joyce desligou. Agora sua fome não a incomodava tanto. Deveria retomar o raciocínio quanto ao assassinato de Ricardo Santê’s, ademais, sabia existir dentro de cada ser humano, um instinto que a qualquer momento pode emoldar a fama de bom moço de um rapaz para a de insensato assassino. Mesmo ela poderia liquidar o aliciador da criança caso se desse com ele, no entanto, é irrevogável afirmar que em situação de constrangimento moral ou perfídia, qualquer um pode se tornar assassino. Mas qual moralidade poderia o Homem do Ano afetar?
Todos que caminham ao sucesso adquirem ao longo de sua jornada alguns inimigos e, sua missão era saber quem poderia ter um motivo plausível para matá-lo.
“Alô!” novamente atendeu o celular e, só agora notou que não tivera retirado os fones quando terminou de falar com sua mãe.
“Sou eu: Tony. Prefere ir até a agência bancária falar com o gerente da conta de Santê’s ou que eu mesmo vá até lá!”
“Podemos ir juntos, ou não? Onde você está?”
“Em um restaurante de quinta categoria, comendo “esta papa que chamam de almoço” porque a minha esposa está em uma viagem.”
“Posso ir até você para nos organizarmos, afinal, não tenho muitas opções de lazer para hoje.”
“Pensei que hoje poderia embriagar-me até o entardecer, mas, não: pessoas continuam morrendo a cada segundo. (...) Tudo bem, tenho aqui comigo o bastante para iniciarmos.”






CAPÍTULO TRÊS


Joyce nunca foi o tipo de investigadores que se encontram em bares e espalham documentos oficiais sobre tais mesas, fazendo as evidências dividirem espaço com lanches gordurosos e refrigerantes, contudo, não estava com ânimo a voltar para sua casa e passar o restante do dia lamuriando a morte de seu filho, ou rememorando os olhos lacrimosos com os quais a menina a mirou; depois de a psicoterapeuta tê-las tocado os ombros e ter feito se desgarrarem do abraço compadecido.
Dentro dos olhos da menina, Joyce pôde notar um fosso de amargor e ódio sem limite, encontrou uma dor profunda e, tentou se recordar de quando teve desejado os filhos do casal estarem passando por alguma circunstância similar àquela; contudo, toda a anterior situação teve gerado um câncer corrosivo à aura da garotinha que, o ministério público deveria tratar, não ela.
Quando passou pela porta do restaurante, ainda tinha os cabelos presos em rabo e trajava a mesma vestimenta da manhã, passou um considerável tempo parada abaixo do portal com os braços entrelaçados um ao outro, enquanto buscava Tony com os olhos.
— Venha até aqui — disse ele e, ela de modo paciencioso pôs-se caminhando em sua direção. O ambiente tinha boa aspiração, as pessoas ali estavam bem vestidas e possivelmente aproveitavam o feriado para celebrarem a vida com seus familiares. Tony portava-se só em uma das últimas mesas do salão e, diferentemente do imaginar de Joyce, ele não estava se embriagando ou tinha espalhado sobre a mesa todas as provas periciais encontradas na cena do crime. Lia um tabloide enquanto os talheres descansavam sobre o prato inacabado.
— Não espera que eu coma as tuas sobras, não é mesmo! — ela sorriu ao arrastar a cadeira a sua frente e Tony endurou a feição.
— Não... não imaginei que pudesse querer.
— Não (...) não quero. — rebateu, agora de forma mordaz.
— Uma garota foi encontrada na mata há uma hora: estava desaparecida há mais de uma semana e a história tem surpreendido bastante a cada página que viramos; as mulheres da companhia não querem trabalhar no caso, pois as cenas são fortes. Ela foi amarrada de costas a uma árvore e demonstrava indícios de tortura, o rosto estava desfigurado e quase irreconhecível decorrente de cortes por lâmina de barbear: tinha as vísceras sobre o colo.
— Quem está no caso?
— Queres o caso? Não me parece nada difícil. Segundo a mãe da adolescente, ela teve discutido com a namorada porque a surpreendeu em uma praça se atracando com um playboy filho de empresário. Na ocasião foi embora, mas, no dia seguinte armou uma tocaia para a garota e espancou-a diante o colégio onde também estudava. (...) Ela desapareceu e imaginava-se que poderia ter fugido por prever uma retaliação pelo que fez com a namoradinha, mas, não: eles a pegaram primeiro.
— Só o que disse já me causou ânsia e desconforto.
— Então: prefere prosseguir no caso de Santê’s comigo?
— Prefiro. O que está lendo?
— Palavras cruzadas... — finalmente rebaixou o jornal e encarou. — Tem certeza que não “balançaria” ao se deparar com a possibilidade de o assassino da vítima ser um magnata das comunicações ou mesmo alguma personalidade artística? Veja que: antes de sair do evento Ricardo assinou um cheque para uma organização que custeia cessões de hemodiálise em pacientes de baixa renda, e, anotou no canhoto do cheque o valor que a diretora da instituição me confirmou ter recebido: vinte mil reais.
— Recebeu dois prêmios e ainda desembolsou vinte mil reais como doação em um único dia?
— Em menos de três anos, A Palm Editora possibilitou a compra de três dialisadores à mesma instituição e... começo a acreditar que ele realmente mereceu ter ganhado o prêmio de homem do ano. ...

continua...

Categoria:
Van Curtt Van Curtt já é citado dentre os maiores nomes da alta literatura contemporânea brasileira, e se consolida a brindar com você leitor seu segundo trabalho, "O Condutor", após o aclamado suspense psicológico "Tabuleiro" (2012), que o apresentou ao mercado e arrebatou a crítica por sua apurada técnica e diálogos sólidos. É hoje munícipe de Uberlândia-Brasil, sua cidade de origem.

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