segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

EM BREVE - À SOMBRA DO INIMIGO (EDIÇÃO BRASILEIRA) - LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO
VAN CURTT19:03 0 comentários

CAPA PROVÍSÓRIA
 
 



 “Lucidez é a competência em indignar-se”.

VAN CURTT

 

“Quero que escrevam em meu túmulo:

Foi vítima dos seus Generais”!

ADOLF HITLER

 

“Não sei como será a Terceira Guerra Mundial:

mas, sei como será a quarta: com pedras e paus.”

ALBERT EINSTEIN
 

NOTA DO AUTOR


 

O austríaco Adolf Hitler (1889-1945), fora um dos políticos mais influentes e, titulado maior ditador de toda nova era, nasceu em Braunau, Áustria: de origem humilde, transferiu-se para Viena e posteriormente para a Alemanha. Após ter participado ativamente da Primeira Guerra Mundial, fundou em 1920 o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), do qual formulou os 25 pontos, fundindo algumas tendências do socialismo com ideias do pangermanismo, do corporativismo econômico e do mais profundo antissemitismo. Fracassara a tentativa de apossar-se do poder, em Munique (Putsch de Munique, 1923) quando fora preso e condenado a cinco anos, mas, permaneceu apenas oito meses no cárcere. Durante o período de detenção escreveu o livro Minha Luta.

Constituiu uma milícia parlamentar, a SA (Guarda do Exército), e sequencialmente a SS (Guarda Especial), logo se espalhando pela Alemanha disseminando o terror e minando as bases do próprio Estado. Em 1931, apoiado por militares e pelo grande capital H, obteve maioria relativa no Parlamento; foi chamado para o cargo de chanceler (chefe de governo) entre 1930 e 1933, e só com a morte de Hindenburg e o apoio de nacionalistas e católicos, assumiu também o de chefe de Estado (presidente). Eliminou os partidos e instaurou o regime totalitário. Expandiu a indústria bélica. Anexou a Áustria em 1938; no ano seguinte, violando o acordo de Munique sobre a questão dos Sudetos, invadiu a Tchecoslováquia, então, com o consentimento da União Soviética, também invadiu a Polônia, desencadeando assim a II Guerra Mundial...

 

Os fatos complementares nesta publicação eventualmente referidos ao ditador são, mera ficção e, não têm escopo bibliográfico, tão como as opiniões aqui exprimidas não remetem aos conceitos do autor ou faz menção partidária, constituindo assim: um ato ficcional sem uma metodologia designativa, perpetuadora ou formadora de opinião.


 
O RETRATO DA GUERRA

 

França – Paris, janeiro de 1943.

Com os cabelos recobertos por um manto, a mulher caminhava agilmente pela calçada da larga e escura avenida agarrada a mão do próprio filho. O garoto estava assustado devido ao perturbador silêncio, porque, o silêncio sempre perdurava após a passagem de uma guarnição alemã.

Roupas, livros, utensílios domésticos, documentos e entulho, estavam espalhados pela calçada que percorriam, então, Ewa teve a inegável certeza de os combatentes alemães terem percorrido o mesmo trajeto seu, do mesmo modo, poderia se defrontar com algum deles procurando algo considerado útil entre os pertences dos moradores que preferiram se refugiar em outro lugar.

 Notou sua respiração tão ofegante quanto a de seu filho; seus batimentos aceleravam indistintamente, fazendo o peito doer.

Ewa sentiu o acentuar do silêncio incômodo demais: todos os judeus residentes no bairro pareciam ter fugido ou morrido naquele confronto. Hasquel e ela poderiam ser os últimos judeus a deixar o bairro para procurar pelos resistores da Rosa Branca, contudo, ela parecia estar consciente que suas chances de os encontrar seriam mínimas, seu esposo havia trucidado três combatentes alemães e ela e Hasquel quem teriam de pagar o preço: a SS vasculharia Paris à procura deles.

Deixou cair a mochila de um dos seus ombros e acelerou o passo.

— Não Haskel... por favor: vamos!

— Mas mamãe.

— Não podemos levar nada conosco. Eles saberão que estamos fugindo e, com a mochila, ficaria ainda mais fácil nos identificar. — Desviara-se de destroços de concreto como também do cadáver de um homem trajado por um sobretudo de costura grosseira e pés descalços. Seus sapatos haviam sido levados pelos soldados da vigília, no entanto, seus conceitos estavam explícitos nos seus olhos negros e pele corada.

Ewa ainda tentou tapar os olhos da criança enquanto passavam por ele, porém, o garoto desvencilhou-se dizendo que se acostumaria rapidamente com aquela ocasião; ação qual a fez retardar o passo e, reacender todas as possibilidades de ser, do mesmo modo, morta pelos soldados da divisão de infantaria alemã. Ewa sabia que nada que fizesse ou dissesse traria ao garoto o aconchego do pai morto em combate.

Quando já estavam a pouco mais de cem metros do corpo estrangulado do homem, ela pausou, curvou-se ao garoto e tentou confortá-lo, mas, por estar encapelado em um tedioso agasalho, ele quase não obteve êxito em tentar retribuir o abraço.

— Temos de buscar abrigo mamãe — e seus lábios ressequidos e frios tocaram de forma serena a maçã do rosto alvo e pálido da jovem e inexperiente fugitiva. — Até mesmo o Exército Vermelho pode estar à nossa procura.

— Tens onze anos Haskel e, por isso, ainda não conseguirias mensurar as desgraças que virão acompanhando o final da Guerra: lamento dizer que Paris não é o pior lugar onde poderíamos estar, mas, em breve se tornará. Permanecer aqui seria suicídio. Assim que os alemães mantiverem o controle sobre toda a França, eles sairão para a última caçada, você me entende! Seguiremos para o Sul... para a Espanha.

— Acredita que o papai tenha desonrado a França só por ter morrido?

— Não querido: teu pai foi um grande combatente, um homem honroso e de muito caráter. Agora pense: o que ele nos pediria agora, para ficarmos e morrer, ou, para fugir e sobreviver?

— Sobreviva Haskel ... sobreviva... apenas sobreviva — sussurrou o garoto ao pé do ouvido dela. — É o que ele ordenaria.

— Então seremos obedientes e sobreviveremos: certo! Tentarei encontrar alguma forma de nos tirar deste inferno. Vou proteger-lhe com a minha vida, assim como teu pai faria por nós.

— Queria ser grande para poder ficar e lutar, mas...

— A Guerra está aqui dentro, — Ewa tocou sobre os botões do pesado casaco do garoto — e a paz também. Teu pai não lutou porque era desejo dele, mas, porque era preciso. Enquanto caminhamos, pense apenas em coisas boas; agora, temos de seguir, não podemos ficar parados aqui.

— Mamãe, deixe o alcorão junto ao corpo do homem para que Alá possa ter piedade a relevar a predestinação dele ao inferno... senti o forte odor de álcool que exala dele, mas, por ter sido morto recente, talvez ainda consiga clamar por piedade.

— É a alma quem recebe o julgamento, não o corpo: o corpo dele ainda permanece conosco, mas, sua alma já se foi há muito tempo logo depois de ser julgada. Temos que seguir.

Ganidos, gritos e disparos fizeram com que Ewa recobrisse o menino com o próprio corpo e mantivesse as pálpebras fechadas por alongado período. Sentiu cacos de vidro penetrando em sua palma quando se apoiou por ela, surgindo uma dor tão intensa quanto a presunção da própria morte.

— Já estamos distantes do homem, e ele, já deva ter conquistado seus méritos para receber a abonação de Alá — sussurrou tentando ignorar a dor.

O garoto nada disse, seus olhos estavam fixos na picape Mack ED que tomava a avenida abarrotada de soldados, carregada de armas e galões de gasolina. Junto aos alemães, Ewa e Hasquel completavam os que se aventuravam por aquele anoitecer, contudo, logo permaneceriam apenas os alemães, pois Ewa e Haskel em breve se tornariam apenas números de guerra, numa estatística inexata dos cânceres que não poderiam se ramificar dentro da sociedade ariana perfeita. Eles seriam exterminados e, estavam ali para isso. Ninguém clamaria por suas vidas.

— Opa, opa... — e a picape fora perdendo a velocidade, enquanto cinco soldados saltavam da caçamba de forma inquisitiva. O líder dos alemães ainda mantinha o motor rolando lento enquanto os demais se aproximavam do casal, analisando a mãe roçando os cabelos do menino. — Vimos você se assustar com a nossa “ronda” e esconder algo sob o casaco, quando o menino lhe alertou. Qual a sua etnia?

Ewa sentiu seus membros entorpecerem enquanto o sangue parecia sumir do seu corpo, fitou de forma libertadora a criança, dizendo-o no olhar que, em segundos, não teria mais de se preocupar com o frio ou com a fome: sua nacionalidade era polonesa e não conseguiria persuadir os alemães com seu francês inapto.

— Proszę ... zmiłuj się (Por favor ... tenha piedade) — disse ela abarcando o alcorão com ambos os braços, enquanto o soldado mirava em seu crânio. — FUJA HASKEL... corra ziguezagueando para bem longe e, que Alá te proteja.

Haskel passou a correr de modo desvairado seguindo os conselhos da mãe, que ajoelhada, curvara-se aos pés do soldado tentando favorecer sua corrida, no entanto, o disparo certeiro atingiu-o ao centro das costas. Ainda cambaleou por um ou dois metros antes de se agarrar a um poste de iluminação e escorrer por ele, sem olhar para trás.

O atirador se voltou à Ewa e chutou contra o peito dela, naquele momento protegido pelo livro.

Ao som oco do coturno contra sua capa, o alcorão se desprendeu dos seus pulsos e caiu na calçada de pedras. As páginas desprendidas pelos constantes chutes passaram a voejar rodopiantes no vento, e, o fogo passou a consumi-lo rapidamente quando despejado sobre ele um galão de gasolina.

Silenciosa; Ewa permaneceu inerte tanto no instante do disparo quanto na queima do livro islâmico. O cano do fuzil Sturmgewehr 44 gelou o espaço entre as sobrancelhas, enquanto um sussurro surgia lançado entredentes, — Każdy naród ma swoją proroka, każdy naród ma swój czas. (Cada nação tem o seu profeta; cada nação tem o seu tempo) — foi com esta citação que Ewa também deixou de constar entre os vivos.




França – Paris, janeiro de 1943.

Três caças alemães Messerschmitt Bf 109 cortaram o céu da capital da França em voos rasantes, enquanto a picape Mack ED contornava a esquina, transportando além de soldados alemães, três corpos sem vida: a matéria carnal de Ewa, Haskel e de outro homem de credo desconhecido, mas que, tivera sido morto por trocar o aconchego do seu lar por algumas doses de uísque. Talvez inconformado por a França ter se rendido incondicionalmente às forças alemãs, ou ainda, por ter decidido abandonar a Guerra como muitos nacionalistas franceses, preferindo a morte a ver a envolvente Paris arder em chamas.
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Van Curtt Van Curtt já é citado dentre os maiores nomes da alta literatura contemporânea brasileira, e se consolida a brindar com você leitor seu segundo trabalho, "O Condutor", após o aclamado suspense psicológico "Tabuleiro" (2012), que o apresentou ao mercado e arrebatou a crítica por sua apurada técnica e diálogos sólidos. É hoje munícipe de Uberlândia-Brasil, sua cidade de origem.

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